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O novo negócio de Trent Reznor

16 jan

… e porque nós achamos ele f***

Trent Reznor vem trabalhando, em parceria com a Beats Electronics (aquela dos fones de ouvido do Dr. Dre), em um novo serviço de streaming de música.

Daisy é uma tentativa de reinventar o mercado de streaming de música dominado por Spotify, Pandora, Rdio, e outros. O músico será Chief Creative Officer do projeto que deverá ser lançado apenas no fim de 2013 e tentará superar os serviços já existentes, especialmente no que diz respeito à inteligência de curadoria para sugerir novas músicas baseando-se nos hábitos de audição dos usuários.

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Além de músico, cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical (a lista é longa), nome a frente e membro único do Nine Inch Nails, o cara já produziu álbum do Marilyn Manson, música do Jane’s Addiction, fez trilhas pra cinema e já ganhou até Oscar e Grand Prix em Cannes. Reznor é inovador, criativo, e sabe trabalhar sua banda como um canal de mídia.

Com uma carreira musical que ganhou destaque lá nos idos de 1989, quando lançou o primeiro álbum do Nine Inch Nails, Reznor poderia ter se tornado um ancião ultrapassado e preso nos antigos moldes do mercado. Mas ele é o oposto disso e não só se adapta bem a novos formatos como muitas vezes está bem a frente deles. Há muito tempo é engajado na busca de novos modelos de negócios para o mercado da música e volta e meia seu nome aparece envolvido em projetos que procuram fugir dos formatos convencionais.

Apesar de hoje em dia ele ter voltado para as grandes gravadoras, em 2008, depois de muitas brigas, – por,  por exemplo, vazar música para os fãs antes do lançamento do CD – ele resolveu sair da Interscope (Universal) e criar sua própria gravadora, a The Null Corporation. Sem amarras, Reznor lançou 2 álbuns do NIN sob a licença Creative Commons e disponibilizou-os no site da banda. O primeiro deles em diversos formatos com preços muito baixos, e o segundo através do download gratuito. “This one’s on me”, disse ele. 1.4 milhões de pessoas fizeram download do site.

O ARG Grand Prix em Cannes

Para o lançamento do álbum Year Zero do Nine Inch Nails em 2007, Trent Reznor idealizou um jogo de realidade alternativa (ARG) que mostrou que ainda há muito a ser explorado dentro da lógica de lançamento de música.

Desenvolvido pela 42 Entertainment, o game teve início com uma mensagem codificada nas camisetas da turnê do álbum, e que decifrada levou os fãs a um website.

Imagem de um dos websites que continha mensagens de um suposto grupo de resistência

Imagem de um dos websites que continha mensagens de um suposto grupo de resistência

A partir daí novas pistas foram sendo plantadas em pen drives espalhados por banheiros onde a banda se apresentava, mensagens codificadas geravam números de telefones, e sites criados espalhavam mensagens conspiratórias. Os fãs foram se envolvendo, seguindo as pistas, decifrando os códigos e conhecendo o disco enquanto a história ficcional ia sendo contada ao mesmo tempo. (Veja a linha do tempo do jogo)

Combinando recursos on e offlines, a campanha maximizou a experiência do álbum e  conectou banda e fãs em um nível que foi muito além da simples audição. Os fãs foram mobilizados e movidos pela curiosidade, envolvendo-se na busca para solucionar o mistério. Um dos números de telefone decodificado em uma das pistas recebeu mais de 2 milhões de ligações!

Veja o vídeo explicando o projeto:

O game se tornou não só um marco na indústria da música, mas também na da propaganda. A ação soube articular tão bem a banda como um formato de mídia e promover um lançamento gerando de fato entretenimento que foi Grand Prix em Cannes em 2008 na categoria Cyber, e teve até gente achando que Trent Reznor /NIN era uma agência.

No cinema

Em 2010 Trent Reznor aceitou o convite de David Fincher para fazer a trilha do filme A Rede Social, que desenvolveu em parceria com seu amigo Atticus Ross – com quem Reznor e sua mulher Mariqueen Maanding  Reznor formam o trio How to Destroy Angels.

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Extremamente elogiado, o trabalho recebeu o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora. A parceria se repetiu  no próximo filme de Fincher, Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo), que tem na abertura uma versão alucinante de Immigrant Song, o clássico do Led Zeppelin, com vocais da Karen O (Yeah Yeah Yeahs). Nas outras músicas da trilha, – são 39 (!) no total – os vocais ficam por conta de Mariqueen.

É por essas e outras que admiramos tanto o Trent Reznor. Alguém que tem visão de mercado, entende o tempo em que estamos e que tem muito a ensinar a muito publicitário por aí.

O caso Bethânia e a incrível batalha entre o Repertório e a Tecnologia

1 abr

Batalha? Mas eles podem, ou melhor, devem brigar? NOT! É, esse post é sobre o episódio “blog da Bethânia”. E sim, esse assunto já está quase velho para os nossos padrões atuais de tempo, mas vale perder alguns minutos para “ouvir” o que temos para dizer.

Bom, só poderia ser com a Bethânia. Afinal, só alguém tão intenso geraria todo esse buzz. Os que defendem, vivem ainda na percepção de uma indústria de mecenato, tempos onde a cultura só era produzida através da lógica da ajuda. Os que criticam, acham um insulto que um blog de poesia, filmado pelo Andrucha, guiado pelo Hermano Vianna e interpretado pela cantora custe 1.3mi.

Pode sim! Deve custar! Todo mundo sabe que dá, que esse é um valor razoavél pela extrema qualidade de seus “feitores”. Mas qual é a questão? A questão é como essa conta deveria ser paga! SIM, esse é o ponto!! E dizemos ainda mais, quem deveria pagar é a publicidade, não como mecenato, mas como parte de sua estratégia de comunicação.

Para todos os revoltados com a história do blog da Bethânia de ambos os lados, na defesa e no ataque, nosso recado é:

“ambos, por favor parem! quem defende e quem ataca está errado! sim! todos, e isso é ruim, ruim pra todo mundo. todo mundo mesmo, até pra quem não gosta ou não tá nem aí pra Bethânia!”

Bom, mas e a publicidade?

Nossa opinião é que a internet transformou todo artista – ou sendo mais intenso, toda pessoa em um canal de mídia e é esse nosso ponto. Por que a propaganda não pode se juntar, participar e estimular formatos que são mais que perfeitos para transmitir suas mensagens pela rede? Falta de justificativa? Conhecimento? Continuidade?

Alguém lembra o que o Trent Reznor fez em 2007 para lançar seu disco Year Zero? Alguém lembra do grand prix de Cannes de 2008?  Bom, pra quem não lembra, o disco da banda foi lançado através de um ARG (alternate reality game). Pistas foram plantadas em camisetas vendidas no show, em pen drives espalhados por banheiros onde a banda se apresentava, dezenas de sites criados com mensagens conspiratórias, celulares distribuídos para possíveis convocações e mais algumas ativações que culminaram num show privê da banda para aqueles fãs que seguiram a jornada até o fim!

Qual marca não quer ver sua campanha ser grand prix? Nesse caso, o grand prix foi pra uma banda. Um formato que poderia facilmente ter uma marca apoiando. Não teve, mas pelo menos o ganhador do Oscar esse ano (Trent Reznor ganhou como melhor trilha sonora original para o filme The Social Network) mostrou pro mundo que A MÚSICA É UMA PLATAFORMA COMPLETA DE COMUNICAÇÃO. Toda campanha foi pautada na mensagem transmitida pelas músicas do disco. Com um pouco mais de ótimas idéias a 42ENTERTAINMENT  transformou o lançamento do disco em case publicitário.

A questão é essa – o blablabla em torno do blog da Bethânia só existe pela preguiça do mercado publicitário e musical brasileiro.

Todo mundo sabe hoje que um blog sai pela “bagatela” de um computador e uma conexão. Mas, todo mundo também sabe que um blog pode muito bem custar quase 2 milhões. A questão não é o valor, mas sim quem tem que pagar a conta. Nós não temos, você não tem, o governo não tem.

O patrocínio Bradesco para o cirque du soleil em 2006 também foi pela Rouanet. Na época, o então ministro Gilberto Gil chamou de “distorção” a liberação autorizada por sua pasta.

O momento em que a cultura foi pra mídia, ela virou entretenimento! Entretenimento é um mercado. Entretenimento não é mecenato, mercado também não é mecenato. Mas a publicidade ainda não faz a lição de casa e quer tratar a internet como uma versão online da mídia tradicional. Quer usar nela a mesma lógica e linguagem que usa para suas campanhas publicitárias. E não é bem por aí.

Nosso mercado de comunicação ainda pena para desvendar o que é essa rede, e como flui a dinâmica da cultura pop que movimenta esse networking. Muitos impactos sem conteúdo, muito conteúdo sem nenhum impacto. Como seria um caminho relevante que passa por sites, blogs, redes sociais, música, shows, vídeos, festivais, eventos, moda, tendências, marcas, virais, impactos, movimentos e mais um monte de coisas? Tudo conectado, um conteúdo no outro, um formato no outro, uma mídia na outra.


No caso da Bethânia por exemplo, uma marca, pelo custo de algumas inserções em tv, poderia apresentar orgulhosamente o projeto em seu formato proposto. Seria criada uma estratégia de divulgação desse conteúdo por sites e redes sociais. Numa segunda etapa da “campanha”, promoções seriam criadas, seriam criados novos vídeos com diferentes vertentes de conteúdo e estética, concursos, shows, incentivos, debates, palestras – um universo seria criado em volta. Tudo através de conexões por computadores, iPads e suas versões, iPods e suas versões, iPhones e suas versões. E finalizando, porque não uma campanha em tv aberta pra contar tudo o que aconteceu?

O projeto torna-se a fonte de conteúdo. E o conteúdo não é a Bethânia. O conteúdo é um mundo melhor pela poesia!

Mas por que as marcas não fazem isso? Não seria o papel da agência dos novos tempos ensinar ao cliente a ver um pouco mais? Não seria papel do marketing saber como andam as novas mídias e as novas verdades em seus conteúdos? Das agências digitais de deixarem de ser apenas produtoras de site/canais? Quais são as verdades, os interesses, as possibilidades, os engajamentos como evolução coletiva?

Ninguém pára, ninguém pensa que os investimentos em tv aberta ainda crescem enquanto a audiência cai vertiginosamente. Há 10 anos que isso vem declaradamente acontecendo e as agências continuam como se nada tivesse acontecendo.

*Blue Bus – “BBB 11 foi um grande fracasso de audiência e um grande sucesso de faturamento”

Por que? Falta de referência? Falta de repertório? Falta de vontade? Falta liberdade?

A possibilidade de uma comunicação na base da troca está aí! Na base do estímulo de produtores de cultura, pra fazer diferença mesmo, pra ajudar a evoluir, fazer acontecer, ser legal de verdade! Podemos começar já!?

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